quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A menina loira da onze


A MENINA LOIRA DA ONZE
Renato Nunes



Mais um dia de trabalho

“Um ato maléfico requer, pelo menos, mil atos heróicos para desfazer seus estragos, às vezes nem isso é suficiente...”. Vez ou outra, entre os goles, essa frase atormentava nosso protagonista.
Já passam das dezoito horas, Febrônio Pacheco, um detetive particular decadente, beirando os cinqüenta anos, mas com a aparência bem envelhecida, rosto frisado, olheiras profundas contornando de preto os vistosos olhos azuis e uma pele de coloração estranha, variava entre um amarelo mostarda e um esverdeado num exagero retórico, graças em parte às décadas de entrega a um teimoso alcoolismo que já o havia feito perder um grande amor e seu emprego de investigador criminal da polícia, carreira que escolheu após uma infância pobre e um começo de juventude onde grandes badernas e alguns delitos eram tão corriqueiros como traumatizantes..., pois esse homem, após mais um dia de labuta, não vê a hora do ônibus parar para poder descer correndo e conseguir, com certa urgência, um lugar para urinar antes que o lugar seja onde for, se é que o leitor me entende.
-- Não devia ter tomado aquela última latinha, desesperava-se inutilmente.
Crunch, pffffff, tssssh, finalmente em terra firme e dependendo apenas de si para atingir o objetivo, arrumar um canto para tirar a água do joelho, Pacheco depara-se com a rua no maior clima de fim de tarde, crianças brincando, casais caminhando, gente indo pra casa, vindo de casa, velhinhas nos portões fofocando sobre a vida alheia, aposentados nos banquinhos contemplativos e NENHUMA árvore, nenhuma mísera moita naquela rua de casas coladas umas nas outras pro infeliz abrir sua torneira.
Foi quando, entre o campeonato de bete* e a Finalíssima do golzinho** que acontecia pouco acima, Pacheco, que possuía um olhar muito atento graças a anos de dedicação àquilo que ele chama de “arte da investigação”, avistou a salvação.

Febrônio Pacheco é “investigador”, como já foi dito, ex-policial aposentado por invalidez, alcoólatra. Dizem que hoje está controlado... Faz “bicos” de detetive, devassando a vida alheia em troca de dinheiro e não suporta mais isso. Acorda cedo demais, por volta de três, quatro da manhã, para colocar as câmeras espiãs em locais estratégicos e enrola no bar e na jogatina até a hora de removê-las, ao fim da tarde.
Pois bem, foi o dito-cujo que, com sua visão de lince aguçada pela urgência da situação, viu entre as duas turmas do esporte, um portãozinho entreaberto de onde transparecia um convidativo arbusto. Com um pulo certeiro em diagonal, Febrônio entrou no quintal e despejou os jatos da sofrida vitória no arbusto que parecia chorar emocionado pelo esforço de Febrônio Pacheco, investigador particular, como gostava de ser chamado.
Passada a euforia da conquista e chegando ao relaxamento post-mictus, um estranho arrepio gela as vísceras do investigador, uma força quase magnética atrai seus olhos em direção à casa, cujo quintal Pacheco só invadira por força maior. Morte. Pensou Pacheco do alto de sua experiência enquanto mirava em direção à porta frontal da casa, entreaberta como o portãozinho, e lá dentro, ao invés do arbusto amigo, Febrônio via, tombados, os pés jovens, provavelmente de uma menina pela delicadeza dos traços. Aproximou-se e arrependeu-se do maldito dia em que decidiu ficar e fazer o seu melhor. No chão, apenas de calcinha, uma garotinha de sequer onze anos brutalmente esfaqueada, na conta rápida de Pacheco, umas setenta vezes, o rostinho angelical desfigurado devido a um afundamento facial causado, segundo o instinto de Pacheco, por algo pesado como uma marreta. Cheiro de morte jovem no ar.
Jovens não devem morrer e se tiver que acontecer, nunca desta forma – pensava um angustiado e revoltado Febrônio Pacheco, enquanto removia as possíveis evidências de que estivera ali e num pulo, parecido visualmente com o primeiro mas totalmente diferente na essência, voltava à rua com a certeza de que algo de útil e honrado deveria fazer com seu talento de investigador, VINGAR A MENINA LOIRA DA ONZE (O NÚMERO DA CASA).

O primeiro serviço

- FP Investigação Particular, em que posso ajudar?
- Gostaria de falar com o Investigador Febrônio Pacheco.
- Sim, sou eu mesmo, do que se trata?
- Queria contratar os seus serviços, podemos conversar?
- Sim, podemos, passe-me teu endereço e te farei uma visita.

Um serviço! Finalmente vou pagar a velha – A velha em questão era a proprietária do que ele chamava de escritório – e, quem sabe, tirar o Chevette do depósito..., sonhava Febrônio, agora livre da cachaça, que voltava a trabalhar após longa ausência.
Rumou, então, de ônibus (atenção leitor ônibus no sentido de plural de ônibus, entende?) ao endereço onde iria negociar o seu primeiro serviço como investigador particular.

- Boa tarde, Sr. Febrônio.
- Boa tarde, Sr...?
- Meirelles, Affonso Penna Meirelles.

Grana alta! - pensou de imediato Febrônio quando percebeu-se diante do famoso grileiro de terras da região. - Sim, Febrônio como todo investigador que se preza, é exageradamente bem informado.

- Pois bem, Sr. Meirelles, do que se trata o serviço?
- Cornice, conhece?
- Muito.
- Tenho sérias desconfianças de que minha mulher – na fotografia, uma jovem, de tenros vinte anos, muito bonita e curvilínea – está dando pra um homem que não sou eu, só não consigo pegar a vadia, preciso que me dê as provas, qual seu preço?
- 5.000 reais e despesas extras – blefou alto, Febrônio.
- Em quanto tempo me entregas as provas.
- Correndo tudo conforme o planejado, sem maiores imprevistos, creio que em 15 dias no máximo o senhor terá a vagab..., digo, a sua esposa nas mãos.

12:00 – a cadela sai de casa.
12:15 – pára no caixa eletrônico
12:30 – pára em um restaurante de comida natural
13:30 – sai, sozinha, do restaurante
14:00 – chega em um salão
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
18:00 – sai do salão
18:40 – para na padaria
19:00 – chega em casa.

Essa rotina estava queimando os neurônios de Febrônio, como os piores conhaques que já tomou. E se for paranóia do Meirelles, a moça não anda um centímetro fora da linha?? – atormentava-se. Já haviam se passado 3 semanas e nada muito além do quase ritualístico esquema CASA-SALÃO com acompanhamentos não muito variados. Até que num dos cochilos durante a estadia da moçoila no salão, Febrônio teve um estalo. Porque eu não desço do carro e vou dar uma olhada nesse salão? E qual não foi a sua surpresa ao perceber que o salão era “vazado”, haviam duas entradas/saídas do lugar.
COMO FUI BURRO, COMO PUDE SER TÃO INGÊNUO??
E de fato, a beleza ímpar da donzela e seu olhar doce e meigo, embaralhavam um pouco o raciocínio de Pacheco.

- Sr. Meirelles?
- Sim.
- Pacheco.
- Quem??
- O investigador.
- CADÊ AS PROVAS QUE ME PROMETESTE EM 15 DIAS??
- é justamente sobre isso que quero falar com o senhor, tive uns problemas técnicos que já foram resolvidos e em uma semana terás em mãos suas provas.
- CLIC.
- Sr. Meirelles?

Já conhecendo, mais do que gostaria, a rotina da rapariga, Febrônio postou-se do lado oposto ao que ficava no salão, apenas aguardando o anjo pecador aparecer.
- Bingo. Peguei a vadia! – vibrava Febrônio com os cifrões brilhando à cabeça, ao vê-la com um lencinho na cabeça, valorizando ainda mais o narizinho perfeito, adentrar um táxi no ponto em frente. De imediato, Febrônio, com o carro alugado com as tais despesas extras, pôs-se a segui-los. Do táxi, a garota parou em um shopping e entrou. Febrônio entrega a chave ao manobrista e, em passos largos, segue a menina, que rapidamente entra no elevador mais próximo que se fecha antes de Febrônio entrar. Olhando pro painel, viu que o elevador foi para a garagem. – Preciso pegar o carro, apressava-se, enquanto em velocidade dirigia-se ao seu veículo, pegou a chave com o manobrista, deixou 10 reais e arrancou pra saída da garagem onde ainda conseguiu ver a fadinha malvada saindo a bordo de uma pick-up com outra pessoa.
Daí pra flagrá-los no motel, fazendo aquela saliência, foi um pulo e em uma semana Febrônio entregava nas mãos do grileiro, digo, empresário Affonso Penna Meirelles, a vida devassada de sua jovem esposa, que o traía com um homem casado e pai de um bebê.
- Dinheiro na mão, enquanto contava os 5.000 em notas de 100, e corno feliz, primeiro serviço de muitos que apareceram para mim, Investigador Febrônio Pacheco.

A despedida

No começo da noite chegaram as sirenes – Polícia atrasada incompetente, resmungava Febrônio enquanto completava seu copo com o whisky nacional que estava em promoção na distribuidora da comercial – depois foram o rádio e a tv e o circo macabro montou-se a poucas casas da moradia de Pacheco, que até o raiar do sol secou duas garrafas daquele whisky meio “feito ali”. E não se embriagou.

Ao final da tarde seguinte, no cemitério onde seria enterrada a garotinha da 11, Pacheco resignou-se a observar de longe o funeral de um anjo e, mesmo chorando copiosamente, pode perceber que alguns rostos presentes não lhe eram muito estranhos.

- A fisionomia do pai me parece muito familiar, pensava consigo, enquanto se afastava do enterro. – “Marcos Lima Jr.”, esse é o nome – pensou enquanto conferia suas anotações sobre o pai da garota – mas não é por nome, se fosse, com certeza me lembraria, é o seu rosto que me é familiar, concluía.

Voltando ao escritório, Pacheco levantou a vida de Marcos Lima Júnior, empresário falido, viúvo, fazia bicos dirigindo van de lotação, vivia sozinho com a filha desde a viuvez, há uns 8 anos.
No mais, nada, que o ligasse de alguma forma à memória que Pacheco insistia em ter dele.

- INÊS MEIRELLES CASA-SE DE NOVO. Só em um país como o nosso, uma futilidade de socialite tem mais destaque que um crime bárbaro como o que ocorreu, se tivesse acontecido em um bairro mais “nobre” ficaria no noticiário por meses, distraía-se com a TV por um instante o outrora “indistraível” investigador enquanto reconhecia na dondoca em questão o alvo de seu primeiro trabalho, a linda jovem esposa do corno grileiro, segundo suas palavras.

- Como dez anos passam... bons tempos aqueles, devia ter tirado o Chevette do depósito com aquela grana e começado a viver de fazer lotação..., falava sozinho enquanto enchia o copo com o seu “red label” batizado que guardava entre os arquivos.

Um pouco mais embriagado, começou a sua seção nostalgia, pegando caso a caso nos arquivos e relembrando os mínimos detalhes como só os ébrios conseguem. Foi quando pegou o envelope do “caso Meirelles” – Olha o caso do madeireiro corno aqui, como era gostosa aquela jovem esposa do cornão, ria às gargalhadas como só um bêbado sabe fazer, enquanto namorava a jovem Inês Meirelles pelas fotos. Foi quando numa centelha de lucidez, Pacheco reconheceu no então amante da jovem e bela Inês Meirelles, um jovial Marcos Lima Júnior, o pai da menina loira da Onze.

Polícia para quem precisa

- E então, Cabral, o que os peritos já analisaram do que foi recolhido na cena do crime da garotinha da Cidade Fora? – Perguntava o delegado Gouveia a um agente.
- Doutor, muito pouca coisa, o negócio parece ter sido feito mesmo por profissionais, há um fio de cabelo, mas o teste demora um pouco mais.
- Fio de cabelo??
- Ou de barba, suvaco, sei lá doutor, sei que foi achado.
- Sim, e o homem que observava o enterro à distância? Alguma novidade?
- Ah, quanto a isso sim, doutor, era um ex-colega nosso, Febrônio Pacheco, um bêbado, hoje em dia é detetivezinho de quinta categoria, dizem que atolado em dívidas, mora na mesma rua da vítima.
- Mantenha alguém sempre observando ele, mesmo assim, algo me diz que esse Febrônio está de alguma forma metido nisso.

Um dos grandes problemas na investigação policial é a falta de motivos para o crime. – O tal de Marcos só tinha amigos, mesmo na merda continuou com vários. Só vivia para a filha. Desde da morte de sua esposa, desdobrava-se para que a menina não sofresse qualquer tipo de carência afetiva. – que apesar da gravidade e crueldade caminhava para o arquivamento.

- Chegou o laudo do DNA, doutor.
- E então, Cabral, desenrola!
- Não corresponde ao de ninguém da família e nem ao dos empregados, ou seja...
- É do assassino, Cabral. Rápido, quero que consiga, não importa como, pele, saliva, sangue da vizinhança inteira, incluindo o ex-policial Terêncio.
- É Febrônio, doutor, ele é boa gente, conheço bem.
- Escutou minhas ordens?
- Sim, doutor.

Cabral então, aproveitou-se da precariedade do lugar e montou uma tenda gratuita onde os homens fariam cabelo e barba e as mulheres, as unhas e cabelo. Foi um sucesso, em uma semana, o agente já tinha DNA suficiente pra colonizar um planeta e todas as amostras de tecido plenamente identificadas. Faltava pegar a do Febrônio – ele mesmo corta seu cabelo – mas isso não tinha a menor importância, Cabral trabalhara anos com Febrônio e conhecia bem seu senso de dever e justiça, seu problema era só beber a ponto de não conseguir trabalhar.

- Pronto, agora vamos ver se o Dr. Gouveia me elogia pela primeira vez.

Velhos amigos

Blim blom. Toca a campainha da casa de Celso Cabral, agente de polícia. – Pacheco, meu velho, você por aqui? Que bons ventos o trazem, seu sumido?

- Infelizmente, Cabral, não é um bom motivo que me trás aqui, eu ando investigando paralelamente o caso da menina da Onze, digo, da garota esfaqueada na Cidade Fora, eu moro por lá, lembra-se? Foi na minha rua, eu sei que é a 15ª que está com o caso, quem é o delegado responsável, Cabral?

- Gouveia. Não é do seu tempo, fez cursos com o FBI e tal, mas apesar da pose, não disse a que veio na delegacia.

- Nenhuma pista?

- Nada de relevante, despistou Cabral, sob o olhar desconfiado de Febrônio. – Está indo pra onde? Te dou uma carona. – continuou.

- Vou aceitar, pode me deixar na altura do Centro Empresarial Meirelles que tenho que conversar com um antigo cliente.

Sob o sol escaldante e ar muito seco, com direito a engarrafamento quilométrico causado por uma blitz fora de hora, impressiona a falta de bom-senso e inteligência de certos quadros policiais – comentava Febrônio, interrompendo por um instante a diálogo recheado de saudosismo e melancolia que os velhos amigos e parceiros desenvolviam durante o trajeto.

- É, parceiro velho, como diz a filosofia barata, recordar é viver, suspirava Cabral.

- Nem sempre, amigo, nem sempre. Há certas recordações que me matam lentamente, como um câncer, posso fumar? – Completava Febrônio, enquanto arrancava a ponta do cigarro, dizia não gostar do sabor do começo. Um ato maléfico requer, pelo menos, mil atos heróicos para desfazer seus estragos... – Vinha-lhe ao pensamento, de novo...

Morcegos no Sótão

- Durante semanas a rotina da moça foi observada, não tem como dar errado, Febu. Vai dar pra trás logo agora? Acha que o pessoal vai aceitar isso, cara? Nem vem... Vai dar uma de cagão por causa de uma guria metida daquela, vai se encrencar por isso? É só um sarro, cara, um amasso, e a gente ainda sai com a grana..

- Não, eu, quer dizer, vou...

E então os sete jovens encapuzaram-se e pontualmente, às onze da noite, postaram-se na penumbra das árvores da quadra, com os olhares voltados para a parada de ônibus.

- Chegou a carruagem da Cinderela, Febu.

A garota, de seus dezenove a vinte anos, lindíssima, mal tem tempo de se afastar do ponto e é abordada violentamente por um dos rapazes, o que a faz cair. Antes mesmo de gritar é atingida no rosto por um forte chute e desmaia. Arrastada para um lugar mais escuro, tem suas roupas rasgadas e começa a ser violentada várias vezes por cada um dos jovens.

- Não foi isso o combinado, não foi isso!!!

A cena se repete e se repete e se repete, até que todos, satisfeitos em seu sadismo, partem em retirada. Menos um, que de longe observa a moça acordar, chorar copiosamente, recolher a roupa em trapos e levantar-se desorientada e em choque.

- Eu não fiz nada... Eu não fiz nada...

O garoto, traumatizado, afastou-se da companhia de seus antigos comparsas de pequenos furtos e durante um tempo dedicou-se aos estudos, inteligente não demorou para passar de “bandidinho vagabundo” para “Investigador criminal bebum” e “Espião de Cornos”, segundo suas auto-definições. E o fantasma daquela noite, nunca deixou de visitá-lo.

- Eu não fiz nada... Eu não fiz nada...

Na jaula com o leão

- O que você disse? – Perguntou um distraído Celso Cabral

- Nada, estava pensando alto... pode me deixar aqui que fica mais perto do retorno pra você.

- Opa, tudo bem.

- Apareça lá em casa, Cabral, vamos conversar um pouco, estou há tanto tempo sem conversar com um amigo, que acabo ocupando minha cabeça com lembranças inúteis e imutáveis... Obrigado pela carona e boa sorte no caso da menina da Cidade Fora. Até mais ver.

- Até logo, Febrônio.

E assim, Febrônio dirigiu-se até a recepção do suntuoso Centro Empresarial Meirelles, de onde se podia ver ao fundo das fontes luminosas, uma grande escada espiral toda revestida de mármore carrara, dizem ser uma réplica fiel da escada do Louvre, mas Febrônio nunca esteve em Paris pra confirmar...

- Boa tarde, senhora, eu vim falar com o Dr. Affonso.

- Sinto muito, meu senhor, a presidência só atende com hora agendada. Sobre o que se trata?

- Um assunto de interesse direto do Dr. Affonso Meirelles, a senhora poderia fazer a gentileza de ligar no escritório e dizer a ele que Febrônio Pacheco, antigo prestador de serviços, deseja e muito falar com ele neste momento?

Após a ligação e posterior autorização, a recepcionista informa a Febrônio o andar da presidência e pede a um segurança que o acompanhe até a sala do grande grileiro.

Chegando à imponente ante-sala da presidência, é informado pela secretária do “homem” que Dr. Meirelles o aguardava e é pedido ao segurança que espere do lado de fora.

- Então você ainda está vivo, detetivezinho, a que devo essa aparição digna de uma assombração após tantos anos?. – Diz o magnata com sua antipatia e prepotência inesquecíveis para Febrônio.

- Sobrevivendo ao mundo-cão, doutor. Li que Inês casou-se de novo. – cutucou Pacheco

- Foi para isso que vieste aqui, traste, acha que tenho tempo para ouvir piadinhas de um fracassado como você? – Gritou Meirelles, já prestes a ativar o viva-voz e chamar o segurança.

- Não. Vim apenas conversar. Mataram cruelmente a filha do ex-amante de sua mulher. E sabe como é... ele sempre foi um boa-praça, não tinha inimizades...

- ...e você, seu filho-da-puta, está insinuando que eu seria um inimigo? – interrompeu Meirelles.

- Não é isso, doutor, é que...

- “É que” nada, conheço tipinhos como você, fique sabendo que o que eu tinha que dar para aquele desgraçado que enlouqueceu a cabeça da minha Nezinha, já dei. E dentro da legalidade, hahahaha. “Quebrei” o comércio do infeliz, montei um negócio concorrente deficitário só para acabar com a vida daquele maldito, tive um prejuízo mínimo frente a ruína que propiciei àquele safado. Soube que o infeliz não teve condições nem de pagar o tratamento e a medicação para sua mulher com câncer, a mesma que ele chifrava com a minha Nezinha...

- O senhor é um monstro, Meirelles...

- Monstro? O que você sabe da vida além dos motéis que filma e fotografa, homem? O que acha que já viu para fazer juízo de caráter de alguém? Um monstro não tira uma delinqüente juvenil do reformatório e transforma numa dama da sociedade. Monstro é quem seduz a mulher dos outros sem se preocupar em saber o quanto foi investido para ela ser o que é.

- Delinqüente juvenil?

- É detetive, quando nos conhecemos, você parecia ser mais informado. Inês Meirelles, na época, Inês Silvana dos Reis era uma interna de reformatório, esfaqueou e matou um homem que tentava estuprá-la e foi presa... Entende a nossa justiça? EU tirei ela de lá, EU dei estudo, cultura, beleza, roupas e jóias, pra quê? Pra um comerciante meia-sola, casado, seduzi-la e levá-la de mim. Eu sou um monstro, detetive?

- Isso muda um pouco as coisas, tenho que repensar tudo... Pensava alto, novamente, Febrônio.

- E por favor, detetive, vá embora, você representa minhas piores lembranças. – disse Meirelles – Dona Sílvia, peça ao segurança que acompanhe o senhor Febrônio até a saída. – Completou ao viva-voz.

Fantasminha camarada

Destino. Sempre irônico e pregando peças nos desavisados e avisados também. Febrônio perguntava-se até quando histórias de morte e estupro cercariam sua vida e seus passos. Ele próprio um ex-delinqüente, convertido em combatente idealista do crime, desmotivado moralmente, a posteriori, ao perceber a corrupção visceral da instituição e sua impotência diante tal, deixou-se dominar pelo alcoolismo e, a sempre redundante ironia, passou a ser o que ele definia “Espião da moralidade dos hipócritas”, tirando seu sustento de quem paga para descobrir atos banais de pessoas comuns.

E vinha a imagem daquela linda e doce mulher, na plenitude de sua adolescência, sendo atacada por um tarado inominável, que sabe-se lá o que faria depois, conseguindo salvar-se matando o homem cruel que a atacava e é presa... Mas, ela matou, e quem mata, segundo Febrônio, mata mais de uma vez.

Deve ser investigada melhor, pensava Febrônio enquanto caminhava rumo ao ponto de ônibus de onde partiria para o Reformatório, onde ainda tinha muitos conhecidos, para saber mais sobre a Inês Meirelles que para Febrônio, se não é ainda uma suspeita - os instintos infalíveis de Febrônio não percebiam nela alguém perigoso - é uma pessoa que tem que ser observada com mais atenção.

- Boa tarde, meu nome é Febrônio Pacheco, sou ex-policial, vim falar com a diretora da ala feminina, é a Dra. Claudia Fegalli ainda? – disse, identificando-se com seus documentos.

- Boa tarde, Sr. Febrônio, ao final do corredor à esquerda fica a sala da Dra. Claudia, preencha aqui e pegue seu crachá. Boa tarde.

O Reformatório está sendo desativado, e o extenso corredor, com portas entreabertas de salas vazias, corredores perpendiculares sem iluminação e um eco ensurdecedor a cada passo dado por Febrônio, fazia-o sentir um desconforto quase sufocante, um medo, todas as lembranças que não queria ter sendo imaginadas ao mesmo tempo, em seqüências não muito certas, como um caleidoscópio dos horrores...

- Eu não fiz nada...Eu não fiz nada....
- INÊS MEIRELLES CASA-SE DE NOVO
- BARBÁRIE NO SUBÚRBIO
- Eu não fiz nada...Eu não fiz nada....
- “Um ato maléfico requer, pelo menos, mil atos...

Senta-se no chão do corredor, pressão baixa, suando frio, abraça suas pernas e põe a cabeça entre as duas, ofegando...

- O Senhor está bem? Senhor? Senhor?

Febrônio aos poucos se recupera do mal-estar e levanta-se, desculpando-se com Claudia que vendo seu rosto, o reconhece.

- Eu não acredito que você apareceu bêbado no meu trabalho, Febrônio.

- Não, Claudia, não me descontrolo mais... foi apenas um mal-estar súbito, devo estar ficando claustrofóbico depois de velho, acho que desenvolvi todas as manias que você dizia que eu teria morando sozinho. Mas, não vim para falar de nós nem de mim. Vim a trabalho, queria ver a ficha de uma interna de vinte anos atrás. Cederia o arquivo para minha pesquisa, Claudia?

- Hmmm – resmungou enquanto analisava o hálito de Febrônio – Claro, sem problema, vou pedir para a Anésia acompanhá-lo até o arquivo-morto.

- Um jantar mais tarde?

- Você ainda vai querer ver os arquivos ou quer dar meia-volta?

E então, acompanhado da baixinha Anésia - impressionava pelo seu déficit de beleza - Febrônio chegou ao empoeirado arquivo-morto e sentou-se a vasculhar as pastas, uma a uma, sem pressa e com toda a atenção. Fazendo um cálculo rápido, afinal de contas não sabia a idade exata nem o ano da internação da menina, separou pastas de cinco anos diferentes e colocou-se a procurar Inês Silvana dos Reis até encontrar.

NOME DA INTERNA: INÊS SILVANA DOS REIS
NÚMERO: 781765
MOTIVO DA RECLUSÃO: HOMICÍDIO DOLOSO EM LEGÍTIMA DEFESA
PERFIL DA INTERNA AO SER INTERNADA (Dra. Marisa Maia, psiquiatra):
Agressiva. Demonstra reações hostis desproporcionais às frustrações percebidas A interna super-reage diante a menor provocação e demonstrando ser explosiva e instável.
PERFIL DA INTERNA AO SAIR (Dra. Marisa Maia, psiquiatra):
Visivelmente mais controlada e bem menos impulsiva, dando, assim todos os indicativos de uma plena reabilitação do trauma e pronta para restabelecer seu convívio social.

Febrônio pega a ficha, novamente acompanhado da Anésia – ele repara que ela tem seis dedos em cada pé – dirige-se à fotocopiadora onde tira uma cópia da ficha, que é devolvida. Toma um cafezinho e vai embora com um pressentimento ruim. Pára por um segundo frente à porta da sala de Claudia, tempo suficiente para marejar os olhos, e segue para casa, exausto e precisando muito de um gole.

- Amanhã, descansado, converso com Inês Meirelles. – pensava, enquanto um leve arrepio gelava seu estômago...

A polícia vem, a polícia vai

Celso Cabral entrega ao delegado Gouveia a “guimba” do cigarro fumado por Febrônio em seu carro. Da saliva, conseguira, finalmente, o DNA do detetive para a análise dos peritos.

- Olha doutor, eu colocaria minha mão no fogo pelo Febrônio, acho realmente desnecessário esse teste, ele é um homem incapaz de cometer uma atrocidade dessas...

- Meu caro, os anos de polícia não te ensinaram que nunca se despreza suspeitos?

- Bom, nesse caso eu desprezaria, não faz o menor sentido.

- Você se esquece que urinaram no quintal da vítima? E, segundo nossos peritos, urinaram em pé, portanto, foi um homem que esteve lá, e seu amigo é homem, não? Então não me venha com sentimentalismos inúteis, faça o seu trabalho e não conteste meus métodos. Se o tal Febrônio for mesmo inocente, o laudo vai confirmar. Amanhã teremos o resultado em nossas mãos, Cabral, amanhã veremos se meus instintos estão certos.

É no lar que tudo se encerra

Um longo banho morno arrefecem as idéias de Febrônio, um pijama limpo e um velho rock’n’roll na vitrola (sua relíquia invendável) e pronto, o detetive pôs-se a ler o relatório da psiquiatra que tratou de Inês Silvana.

"Minha mãe era uma mulher vulgar, uma louca que fazia sexo com vários homens por dia, na frente das filhas, e não se lembrava. Às vezes sim, se lembrava e batia na gente, nos xingando de vagabundas, de putas. E gritava que não era de ninguém, nem minha, nem de minha irmã; nem de João, Pedro ou José. De todos e ao mesmo tempo sozinha" (Inês Silvana dos Reis, - diário pessoal 1982, p.24). Sua mãe faleceu quando Inês estava na primeira infância. Com o falecimento dos pais foi adotada pelos tios aos doze anos, tendo inclusive modificado seu sobrenome. Iniciaram-se brigas no colégio, depois vieram os abusos sexuais na família, o álcool, as drogas e a prostituição (através da qual conheceu a vítima). Teve algumas internações anteriores ao crime para tratamento psiquiátrico, mas não foram bem-sucedidas.Condenada por homicídio, foi internada no Reformatório, onde viveu dos 14 aos 17 anos.

Seu crime, apesar do atenuante da legítima defesa, impressiona pela crueldade e frieza. A vítima foi esfaqueada seguidamente por 75 vezes e ao final teve o crânio esmagado por seguidos golpes de pedra. A interna não demonstra qualquer sentimento em relação ao fato, justificando ter continuado a golpear a vítima, mesmo após seu falecimento devido às várias perfurações e cortes, para “ninguém nunca mais olhar para aquele rosto”

Os olhos de Febrônio pairam sobre os parágrafos do relatório que embaralham-se, esfumaçam-se, diante do ofegante detetive que lentamente solta a fotocópia que lia deitado em sua cama.

- Fo..Foi ela, Inês matou a garotinha. A maldita matou a menina..., pensava alto enquanto arrancava a ponta do cigarro e buscava seu “red label” de estimação, com a mão direita trêmula, embaixo da cama.

Enche o copo de requeijão até transbordar e bebe numa só vez, num só fôlego. Pousa o copo sobre a mesa, as mãos outrora firmes e decididas, vacilam, deixando o copo rolar por toda a extensão da mesa e espatifar-se, aos cacos, no chão. Presságio? As pernas do exaurido detetive adormecem... Torpor que se erradia por todo o corpo, nocauteia a mente cansada, sonhos terríveis, suor frio... Com a cabeça pendida para fora da cama, Febrônio dorme o mais terrível dos sonos, justamente aquele que precede seu encontro com o algoz de seu anjinho loiro, a assassina da menina loira da Onze.

Alvorecer do passado

- Que mesa, hein, Nezinha... Que Café da Manhã, não? Quando que nos seus tempos de xilindró você ia imaginar-se em uma mesa como essa, comendo do bom e do melhor, tendo cinco funcionárias ao seu dispor, fartando-se em luxo e mordomia?

- que café da manhã... – desolava-se em pensamentos – Que conversa é essa, Affonso? Sinto uma certa agressividade em suas palavras, uma ironia, o que você está querendo? Humilhar-me de novo, logo pela manhã? Xingar-me e repetir, cheio de autoridade, que não poupou seu dinheiro para fazer de mim a mulher que sou?

- O que é isso, Nezinha, estava querendo descontrair o ambiente, tenho achado você um tanto tensa nos últimos dias, hehehehe, onde está o seu senso de humor, cabrita?

- Esgota-se a cada manhã ao seu lado, babaca – pensava, prudentemente, apenas pensava – Perdi a fome, Affonso.

- O que pretende fazer hoje, Nezinha?

- O que uma dondoca fútil que se casou com um magnata por puro interesse faz? Endondoca-se. É isso que me resta a fazer diariamente, endondocar-me, Por quê, alguma sugestão para mudar minha rotina?

- Nezinha, não tenho tempo para pitis femininos, alguém trabalha pra manter esse padrão de que se queixas, talvez seja saudade da sarjeta...

- É, talvez seja.

Um banho de ofurô ao longo de uma hora, ajuda a jovem a relaxar um pouco seus pensamentos, algo a incomodava, e não era apenas a presença carregada de seu marido que, graças ao bom Deus a quem se devotava a moça, partira ao trabalho, algo, uma presença, um sentimento de um porvir nada animador perturbava profundamente Inês.

Ao meio-dia saiu de casa, sacou um dinheiro no caminho e partiu rumo ao seu segredo maior, pela saída do salão, com a conivência das funcionárias, instruídas a informarem que ela estava na sala de depilação, caso fosse procurada. E encontrou, finalmente, o homem a quem seu coração já fora entregue em uma bandeja. Um beijo ardente e enlouquecido logo à porta do Motel é seguido de um entrelaçar de braços e mãos e roupas ficando pelo caminho, pisadas. Caem-se os dois sobre o colchão num enlace rotativo, amam-se com força, animalescamente, unhas cravam-se às costas do homem, sangue escorre, desfalecem-se em gozo...

- Inês... – diz o homem – tenho algo para te dizer, muito importante.

- Diga, Marcos... – responde Inês com um brilho reluzente em seus olhos azuis.

- Conversei com Vânia sobre nós...
- Amor, não acredito!! Vamos nos assumir, acabar com a farsa da minha vida de futilidades inúteis?

- Ela tem câncer... Escondeu de mim durante todo o tempo, vai começar uma quimioterapia, não daria mais para esconder...

- E...?
- Inês, ela tem câncer, compreendeu? Tem a bebê também... Não posso abandoná-la agora, não seria humano nem digno virar as costas à companheira num momento desses. Nós teremos muito tempo ainda para resolver nossa vida, ela não.

Inês apenas consentia com a cabeça, mas a face tensa e a lágrima silenciosa denunciavam um vulcão de fúria pronto para entrar em erupção.

- Venha ver a suíte toda, Inês, vamos esquecer problemas durante nossos momentos que são tão poucos... Olha já viu o teto solar? – disse mostrando a área externa com uma banheirona ou piscininha, como preferirem.

- Vi. Um preço desses e eles nem se dão o trabalho de limpar a piscina – respondeu Inês apontando para um pedaço de cigarro que boiava e começava a desfazer-se na piscininha...

Dois dias se passaram e lá estavam novamente, cara-a-cara no desjejum, marido e mulher, e um novo acompanhante, um envelope pardo.

- Sabes o que é isso? – perguntou Meirelles, sobre o envelope.

- Nem desconfio o que seja, passe os ovos, por favor.

- São as cópias das fotos da piranha da minha mulher com o mais novo candidato a defunto da região...

Inês assusta-se, um primeiro instinto de chorar pára-lhe à garganta, resta o gelo que sobe pelas pernas e chega à primeira vértebra, assumindo toda a cabeça e descendo, lentamente, pela face até a ponta dos dedos do pé, e, semiprostrada, tenta reagir.

- Faça o que quiser comigo, Affonso, ele é um homem bom, eu fiquei em cima por meses, insistindo, forçando situações, eu me apaixonei...

- Sua mala já está na garagem, vagabunda, volte para sua pocilga, não tens direito a nada, pelo flagrante adultério, suma e, talvez assim, salve a vida do seu namoradinho.

- Talvez, Affonso, talvez.. Posso vender muita entrevista por aí... Milionário corno vende bem – disse, desafiadora como um kamikaze.

Assim então, entraram em um acordo, bom para ambos, financeiramente para Inês e também para a imagem do empresário.

Para Inês foi o início de uma contagem regressiva mórbida, para a morte de Vânia, esposa de seu amor. Meses passaram-se, um ano, dois meses e, enfim, o câncer vence aquela valente mulher que amparada pelos seus, marido e filha, teve uma sobrevida muito acima da média para os enfermos com o mesmo tipo de doença. Inês acompanhou o enterro, irou-se com os sentimentos de seu amante para com sua esposa, nunca havia visto aquela ternura em seu olhar, e as lágrimas além de verdadeiras, eram sentidas, sofridas, de verdade. Inês sentiu-se fora da vida daquele homem pela primeira vez. Ela já estava, mas não sabia.

- Não dá, Inês, não dá mais. Preciso cuidar da minha filha, ela não gosta de você, tem medo, coisa de criança, vá entender. Ela perdeu a mãe agora.

- Como assim, Marcos??? Você tem idéia do que está falando? Você se lembra do que EU abri mão e o que perdi para ficar com você?
- Eu perdi também, Inês, por conta da nossa loucura, perdi meu negócio e minha companheira, minha esposa amada, AMADA, Inês. Agora não quero perder minha filha, o amor da minha filha. Você foi um erro, Inês.

- É sua palavra final, Marcos?

- Sim.

- Vingança é um prato que se come frio..., pensa Inês enquanto espetava a cereja do Martini e levava à boca.

- Falou comigo, querida? – pergunta o marido da vez.

- Não, apenas pensei alto. – E continua pensando – Desde aquele dia, o último em que vi Marcos aos olhos, decidi que minha meta de vida seria me tornar a mulher mais fútil do planeta, gastar e gastar e gastar, e acabar com a vida dos responsáveis por esvaziar a minha, a menina ridícula já mandei para o inferno, serviço dois em um já que o pai, finalmente, tornou-se um trapo de vida... Agora só falta o detetive, o maldito desgraçado que arruinou todos os meus projetos de vida, e para este eu tenho um presentinho todo especial.

- Disse algo, Chuchu?

- Não. Você não vem se deitar? Amanhã acordaremos todos muito cedo.

Apagaram as luzes e em pouco tempo, enquanto o marido ronca aos decibéis, Inês posta-se de olhos vidrados, a esperar a noite passar, acordada e estranhamente ansiosa.

Mil atos heróicos

Algumas anotações importantes antes de sair. – pensava Febrônio – Sinto um mal-estar incomum, posso nem voltar dessa visita – continuava enquanto, após anos, tirava seu velho 38 do criado-mudo empoeirado, abria o tambor, conferia os cartuchos e fechava novamente, soprava a poeira e colocava em seu coldre axilar...

E o diário é deixado sobre a mesinha de centro, próximo ao controle remoto da sua TV. Parte o detetive, descendo rumo ao ponto de ônibus, naquela manhã fria, nuvens baixas, neblina, muita umidade. O detetive espirra seguidamente, retira um cigarro da carteira, arranca-lhe a ponta e acende enquanto passa em frente à casa onze e de canto de boca, sorri, e diz à garota que a justiça será feita, chegando no ponto de ônibus, compra um milho cozido de um ambulante e faz seu desjejum.

Inês espreguiça-se, o ar condicionado não fez bem à sua rinite, espirra seguidamente antes de levantar-se e seguir para a sala onde um suntuoso café-da-manhã (ou se preferirem no inglês que substituiu o francês como estrangeirismo designador da elite terceiro-mundista), um brunch bem, mas bem servido mesmo a aguardava. Durante longos vinte minutos, Inês, sentada à cabeceira da mesa, contemplava o nada, um vazio gigantesco tomava conta de seu peito, vazio de amor, de pai, de mãe, de amigos, de tudo o que ela não teve durante seus trinta e poucos anos. Sobrava-lhe dinheiro, faltava-lhe vida.

A loucura, então, tomou-lhe de assalto. Ria e ria e ria, relembrando o olhar aterrorizado com que a menina a olhou quando ela chegou à casa, lembrou-se do choro compulsivo da criança ao vê-la e sorriu mais. Puxou a toalha da mesa, derrubando tudo ao chão. Ria mais, imaginou a cara de Marcos ao ter que reconhecer o corpo da sua criança, riu mais. Só parecia lamentar não ter feito o que pareceu ter feito. Ela se arrepende de não ter realmente matado a facadas, dando o golpe esmagador de misericórdia ao final do rito. Não teve coragem. E se arrependia, COVARDE, COVARDE, repetia para si. Um sonífero seguido de uma química incerta que causa parada cardíaca foram utilizados para matar a garota, a perícia incompetente nem percebeu isso, que só depois de morta foi submetida à violência desmedida da mulher que, cada vez mais perturbada, decidia-se de uma vez por todas acabar também com a vida do detetive Febrônio Pacheco, autor do serviço que, segundo Inês, acabou com todas as possibilidades de felicidade de sua vida.

- Doutor, o resultado do DNA.

- E então, Cabral

- 99,99% compatível com o do ex-investigador Pacheco, incrível, realmente estou surpreso, mas esses resultados não se contestam... quase murmurava, um perplexo Celso Cabral.

- Pois bem, vou conseguir agora que um juiz me dê a ordem de prisão, deixe tudo em prontidão que não devo demorar.

E, realmente não demorou, em duas horas, um juiz amigo do delegado expediu a ordem de busca do investigador. Dois carros da delegacia rumaram à Cidade Fora, com mandado em mãos, para capturar e prender preventivamente Febrônio Pacheco, sob a acusação de ter assassinado a menina a quem o detetive, ateu praticante, tem como santa.

Os agentes posicionam-se frente à casa, Cabral toma a frente e bate à porta.

- Febrônio? Velho amigo, saia, sei que é um mal-entendido e deve ser esclarecido, mas acompanhe-nos sem resistência, amigo, pro seu bem mesmo, você sabe bem melhor do que eu.

- Não responde... A porta está trancada, voltamos depois?

- Que depois que nada, disse o agente Antunes, o próprio bonequinho do “tira” de filme norte-americano, enquanto, num golpe rodado de perna, põe abaixo a porta da casa de Febrônio. Todos entram.

A casa está muito arrumada, por incrível que parecesse ao Cabral, e as tradicionais garrafas vazias que decoravam da sala a cozinha todo o rodapé foram finalmente mandadas para o lixo. O quarto do detetive é revirado, mas nada que acrescentasse algo à investigação do crime foi encontrado.
Mas, como o nariz está bem em frente aos olhos e mesmo assim, pouco o vemos, demorou até que um dos policiais percebesse o diário sobre a mesinha de centro.

- Agente Cabral! Esse diário parece ter muitas coisas, veja!

...e sinto estar partindo para um encontro com um monstro assassino. Sim, eu consegui encontrar a assassina da menina da casa onze, não sei se voltarei, se voltar, todo esse diário vai ter sido em vão, mas, sinceramente, espero que seja.
A assassina é a socialite Inês Meirelles, estou indo encontrá-la de manhã, se tudo der certo, antes do jantar colocarei essa mulher atrás das grades. Com a proteção da garotinha onze, fui.

- Ih, caralho, isso foi escrito hoje, cedo, o Febrônio já deve estar lá, avise na delegacia sobre a novidade no caso, arrume o endereço de Inês Meirelles e vamos rápido, não sei se a paranóia do Pacheco pega, mas sinto cheiro de fedor no ar.

BLIM-BLOM, era esse toque cafona que denunciava o interfone chamando no luxuoso duplex com serviço de quarto e recepção mais luxuosa ainda.

- Visita para a Sra. Inês, avisava o recepcionista.

- Aguarde um pouco, disse a criada enquanto procurava pela imensidão do duplex, a sua jovem patroa.

- Inês Meirelles Alencastro, quem deseja falar comigo?

- É o senhor... abafou o fone e perguntou de novo o nome do visitante, ...senhor Febrônio Pacheco, senhora. Posso mandar subir?

Os olhos de Inês acenderam-se, era como se os deuses tivessem resolvido facilitar a sua vida, ali estava o homem que até ontem Inês ainda perdia o sono pensando em achar. Batendo à sua porta como um Piu-piu suicidando-se à boca de um desavisado Frajola.

- Mande-o esperar uns quinze minutos, rapaz.

- Sim, senhora.

Consumida pelo ódio, mas fria, como sempre, Inês apronta-se para o momento que sempre sonhou, pega seu punhal, o mesmo que há tempos rasgou a carne de um agressor e, depois, o corpo sem vida de uma garotinha inocente, retocou seu batom espelhando-se na lâmina, lambeu o fio para testar o corte, feriu levemente a língua e engoliu o sangue com a satisfação sádica expressa em seu rosto enquanto guardava a ferramenta de morte em sua bolsa.

- Pode mandar o homem subir. – Ordenou ao recepcionista.

Febrônio já ia arrancando a ponta de mais um cigarro quando o rapazote da recepção acenou de dentro do saguão principal para o detetive que, da calçada, guardou novamente o cigarro na carteira e entrou no prédio, agora para subir e capturar a mulher que um dia fotografou amando e que agora apenas é a assassina que pretende levar consigo à justiça.

Ao subir, encontra a porta do apartamento já aberta, entra e vê a belíssima Inês, agora com uma beleza mais madura e nem por isso menos encantadora, vestida em um sensualíssimo hobbie branco, transparente como a lingerie que usava por baixo, no bar da sala, pernas torneadas estrategicamente cruzadas. Febrônio bambeia.

- Bom dia, Dona Inês, desculpe-me não me apresentar, meu nome é Febrônio Pacheco, eu sou investigador...

- ...particular. Eu conheço o senhor, Sr. Pacheco. Não pessoalmente, é claro, mas sua fama o precede, detetive.

- Pois, Dona Inês, o que me traz aqui é sério, muito sério. Vim levá-la a me acompanhar à delegacia. Eu sei que a senhora matou a filha do seu ex-amante, uma criança inocente, um anjo. A senhora não vai me forçar a ser mais, digamos, convincente, não?

Inês, que não esperava por isso, desabou em choro no chão, entre soluços e sons ininteligíveis, postou-se em um canto da enorme sala, abraçou os joelhos e chorou copiosamente.

- Eu entendo seu arrependimento, você deve ter problemas, pense bem, você pode se tratar também, se reestabelecer, quem sabe, após pagar pelo seu erro. – Compadecia-se o bondoso detetive enquanto estendia um lenço para a mulher, que ele, ainda assim, via como a quase-adolescente a quem espionou.

-VOCÊ ESTÁ ME CHAMANDO DE LOUCA, DETETIVE?

- Não foi o que quis dizer.

- Mas, disse, infeliz, disse. Quantas pessoas no mundo sobreviveriam após passar o que passei, detetive? Sou uma filha do estupro, como minha mãe sempre fez questão de frisar. Sabe o que isso significa? Segundo minha mãe, a mulher que engravida em um estupro, foi fecundada pelo demônio, e foi isso que ouvi durante minha infância inteira, que eu era uma cria do diabo, uma criança ouvir isso durante tanto tempo, desde bebê... Não tive mãe, nem pai, nem ninguém, só tinha a mim mesma. O Affonso, que todos pensavam que me aproximei por interesse, foi durante muito tempo o amigo, o paizão que tanto precisei, Marcos foi meu amor, se tudo tivesse acontecido ao seu tempo, Affonso entenderia minha situação. Mas, você, detetive, acabou com tudo que poderia acontecer de bom para mim – chorava mais, gritando quase, o interfone tocava, talvez fosse algum vizinho preocupado com a gritaria.

- Não chore assim, levante-se, nós vamos conversando no caminho.

Ao levantar-se, Inês aproxima-se de Febrônio e beija-o, suas mão passeiam sobre a calça do quase cinqüentão detetive, procurando seu genital que se enrijece sob o tecido, uma repulsa repentina toma conta do detetive que empurra a mulher para longe, Inês apanha a bolsa que estava na estante em que trombou ao ser empurrada, abre-a e volta-se ao detetive, em fúria...

- Ninguém atende, senhor. Creio não ser bom incomodá-la, ainda mais sem nenhuma ordem ou mandado oficial, nossos hóspedes prezam muito a tranqüilidade, policial, se é que o senhor me entende.

- Quem não está entendendo é você, seu almofadinha, nós vamos subir agora para falar com Dona Inês.

- PÁ!

Um estampido seco interrompe a conversa.

- Tiro! Vamos subir, pessoal, rapidamente!

Pela escada, os policiais rapidamente chegam ao terceiro andar onde ao final do corredor fica o apartamento de Inês Meirelles, a porta, destrancada, não é empecilho para a passagem de Cabral e seus homens que ao entrarem no apartamento encontram uma grande poça de sangue e, ao chão, gravemente feridos, jaziam Febrônio e Inês.

A ambulância é chamada, Inês não resiste ao ferimento à bala e morre a caminho, Febrônio com um profundo corte no pescoço, sangra bastante, recebe a primeira transfusão ainda no carro. Tem sua primeira parada cardíaca, o desfibrilador o reanima, entra em coma.

O caso do assassinato de Fabiana Lima, 11 anos, residente na Rua dos Buritis da Cidade Fora, encerrava-se, arma do crime encontrada, assassina morta, apenas o tal DNA ainda inquietava o delegado Gouveia.

Dois longos meses se passaram até Febrônio acordar de seu coma, muito magro, com a voz comprometida pela traqueotomia, com pouca sensibilidade do lado esquerdo do corpo. Após uns dias de readaptação à luz, comida e etc, recebe visitas e reconhece Cabral.

- Onde estou, Cabral? Cadê a Inês? Durante todo o coma, ela em nenhum momento saiu de minha cabeça - balbucia, enrolando um pouco as palavras

- Você vai ficar bem, Febrônio.

- Que cara é essa, estou tão mal assim?

- Febrônio, provavelmente você não andará mais como antes, mas não é isso, velho amigo, é algo mais forte.

- Pode falar e espero que fale logo, se esse coração não parou com o acontecido, não pára mais com nada, tem um cigarro? – disse, estendendo a mão direita para pegar o cigarro, arrancar a ponta e colocar apagado na boca, lembrando que não se fuma em hospitais.

- O Dr. Gouveia, com uma história de DNA...

- Fale logo, homem.

- Acabamos descobrindo que a mulher, Inês, é sua filha, Febrônio.

...Sou uma filha do estupro, como minha mãe sempre fez questão de frisar...
Vai Febu, vai logo, tá parecendo um galo, hahahaha, Vai Febu!
Eu não fiz nada.Eu não fiz nada...EU NÃO FIZ NADA, NÃO, não fiz...nada, nada – A partir daquele momento, nosso herói se tornaria um catatônico que repetiria essas frases até o fim de seus dias...

Um ato maléfico requer, pelo menos, mil atos heróicos para desfazer seus estragos, às vezes nem isso é suficiente.

fim

Um comentário:

Unknown disse...

Que porra é essa?
Você fez um romance?
Li a parte da apresentação do Pacheco.
risos.